Como é que ainda pensam construir sem arquitecto ?




Quanto aos empreiteiros não é verdade que existem SEMPRE problemas. Eu como arquitecta já trabalhei com vários e acabei por reduzir a equipa com quem trabalho actualmente a 2 empreiteiros por ter confiança neles. Quando não cumprem os prazos deve-se muitas vezes a problemas exteiores (problemas inesperados no terreno, licenças, demora da parte do cliente na escolha dos materiais, etc.).
O que é importante da vossa parte é controlarem bem a obra, com a ajuda do arquitecto e pressionarem o empreiteiro sempre que for possível.
E sim, é complicado desenhar uma casa e talvez uma chatice ter de escolher tudo, mas a verdade é que estamos a falar de construções para a vida...
Aproveito para te deixar um pequeno texto humurístico, na esperança que te anime o processo
Como construir a sua moradia sem ter que aturar um arquitecto Rui Campos Matos
>(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção
>"Arquitectura e Território)
>
>Quantas pessoas, quando chega o momento de construir a
>moradia com que sempre sonharam, não passam pela
>aflição de perguntar a si próprias: será que vou ter
>de aturar um arquitecto?
>Neste pequeno artigo, tentarei explicar como construir
>uma nova casa, sem se sujeitar às exigências de um
>desses profissionais. Para que o empreendimento seja
>levado a cabo com êxito há que fazer três importantes
>escolhas: estilo, técnico e empreiteiro.
>
>O estilo>Eis-nos perante a primeira decisão a tomar - o estilo
>da casa. Felizmente não é
>difícil porque existem
>apenas dois: o tradicional (também conhecido por
>rústico) e o moderno, que vem colhendo cada vez mais
>adeptos entre os jovens.
>O tradicional caracteriza-se pelo típico telhado de
>aba e canudo, a janela de alumínio aos quadradinhos, a
>lareira de cantaria com a sua chaminé e o
>imprescindível barbecu, testemunho dos inumeráveis
>prazeres da vida rústica. Já o moderno é completamente
>diferente, tão diferente que até as coisas mudam de
>nome. O telhado desaparece, dando lugar à cobertura
>plana; a janela perde os quadradinhos e passa a
>chamar-se vão; à chaminé, em tubo de aço inoxidavel,
>chama-se fuga; e barbecu é um termo obsceno que deve
>ser evitado na presença das senhoras.
>Não existem, pois, quaisquer espécie de dúvidas quanto
>a questões de estilo - ou se é tradicional ou se é
>moderno, as duas coisas ao mesmo tempo é
>impossível.
>
>O técnico>Escolhido o estilo, há que escolher o alfaiate, que
>aqui designaremos pelo técnico. Trata-se de uma
>escolha muito fácil, porque o que não falta são
>técnicos. Intitulem-se eles construtores civis
>diplomados, agentes técnicos de engenharia,
>electricistas habilitados ou desenhadores habilidosos,
>todos se regem pela mesma cartilha, a de João de Deus:
>o pinto pia, a pipa pinga. Não passaram cinco anos a
>estudar arquitectura? Não estagiaram mais dois? Que
>importa isso? Concentremo-nos apenas nas suas
>virtudes:
>1- Projecto elaborado em tempo recorde.
>2- Preço: 999 €.
>Mas como conseguem eles ser tão eficazes? É simples:
>antes de encomendado, o projecto já está feito. Até
>parece milagre! Mas não é, o que se passa é o
>seguinte: o técnico tem duas pastas no computador, uma
>para projectos em estilo
>tradicional, outra para os
>modernos. Escolhido o estilo pelo cliente, é fácil,
>emenda daqui, remenda de acolá e, numa tarde, o
>projecto está feito! Para quê complicar?
>"Mas o rapaz parecia semi-analfabeto, disse que não
>podia assinar o projecto, mas que havia outro técnico
>que podia.". Não é caso para preocupações, trata-se de
>uma situação corrente em que um técnico analfabeto
>paga a um técnico habilitado para que este, a troco de
>uns trocos, assine de cruz. Está tudo incluído no
>pacote e, (ironia do destino!), quantas vezes o
>técnico habilitado não é um arquitecto daqueles que
>faltaram às aulas de religião e moral.
>Aprovado o projecto, o técnico já não é preciso para
>nada. É dizer-lhe adeus que ele até agradece, porque
>de obra não percebe nada nem quer perceber, quem
>percebe disso é o empreiteiro - a nossa terceira e
>última escolha.
>
>O empreiteiro>O primeiro encontro entre cliente e empreiteiro
>costuma ser decisivo. É nele que terá de se
>estabelecer, entre o primeiro e o segundo, uma relação
>de confiança cega, em tudo semelhante à fé. A fé de
>quem acredita que, com um projecto feito por um
>técnico, que não especifica nada, que não pormenoriza
>nada e que não quantifica nada, não vai ser enganado
>por um homem que passa o dia a fazer contas de cabeça.
>Entre cinco pequenos empreiteiros, como escolher o
>indicado para construir a moradia? Infelizmente,
>chegados a este ponto, não posso recomendar senão fé,
>muita fé e confiança, porque tudo o resto é
>irrelevante:
>1- O valor do orçamento é irrelevante, foi feito com
>base no projecto do tal técnico, é um número atirado
>para o ar, um número que, com os imprevistos, há-de
>subir ainda umas quantas
>vezes.
>2- O prazo estabelecido para concluir a obra vai
>depender do bom ou mau tempo e, nesse capítulo, só
>Deus sabe.
>3- As garantias dadas são as que estão na lei - cinco
>anos. Se a casa apresentar defeitos, reclame; se a
>reclamação não for atendida, recorra ao tribunal
>(também pode recorrer ao pai natal se achar que demora
>menos tempo.)
>Em suma, não vale a pena perder tempo com ninharias, o
>mais importante é ter fé.
>
>Conclusão>Se, apesar de conscienciosamente feitas estas três
>escolhas, as coisas não correrem lá muito bem, se a
>casa ficar pelo dobro do preço, se no Verão se assar
>lá dentro e no Inverno se tiritar de frio, se para
>abrir a porta do armário for preciso arrastar a mesa
>de cabeceira, se o vizinho protestar com o barbecu, se
>a cobertura plana meter água, não vale a pena
>desesperar, resta sempre a consolação de não ter tido
>de aturar um arquitecto.
Rita & David